12/10/2015

Menina

Menina nasceu menina, cresceu menina e tornou-se Menina(com "M" maiúsculo mesmo). Não tivera opção, seu pai (este que depois de ter-la, fora renomeado apenas de "pai" ) prometera lhe dar um nome apenas após sua juventude, porém não chegou nem antes disso. Menina, então cresceu só Menina, sendo apenas uma alguém-ninguém, porque quem não possui nome, não existe, só está lá.
Menina se tornou Menina deitando-se  no chão para sentir sua firmeza, pois sempre esquecia sua textura. Fez com que todos acreditassem que ela só era ela porque estava ali. E se fugisse? Menina não era mais ninguém. Menina tinha um belo nome, as pessoas sabiam. E toda vez que alguém gritava: "Hey, Menina!", o mundo sabia que só poderia ser aquela menina.
Menina descobriu-se mulher sendo a tal "menina risonha, aquela que ri e que sonha", e olhando aquele rosto a gente percebia que no seu seu "sorriso, só tinha riso", também se percebia aquele seu "olhar sonhador, que sonha, mas conhece a dor" e no meio do processo aprendeu que só existe "amor confusão".
O problema de dona Menina foi que ela não aprendera  direito sua lição, e quando se apaixonou no fim de sua mocidade, se apaixonou por um poema, acreditando na sua obrigação de fundir-se ao seu grande amor, deixou de existir. De alguém-ninguém, virou apenas ninguém-alguém, pois mesmo não existindo, estava lá.
Não dera nem tempo de ser nomeada pelo Tio quando sumiu reunindo-se à sua paixão, ninguém sabia de seu paradeiro. No fundo, todo mundo já sabia que ela era a Paula, a Júlia, a Nanda, a Ana, a Luiza, a Maria e tantas outras, mas só os espertos sabiam que ela tinha se  transformado nas fotos do teto e na segurança do chão, na roda de ciranda entre bolhas de sabão, na brincadeira de bola, no vento que sacoleja as roupas no varal, ela se tornara poesia. Todos admiravam sua leveza, mas poucos entendiam que era por falta do peso de um nome.  Menina foi mais leve porque não carregava o peso de ser uma só. Ela fora digna de ser só Menina, fora única e não precisou de sobrenome para diferenciar-la.

16/06/2015

O Tempo

Nosso tempo, nossa maior riqueza, nunca pode ser recuperado ou reaproveitado, mas pode ser gasto. O tempo serve como um ácido: ele tira todas as nossas camadas, as corrompendo, as destruindo, as queimando, até estarmos cansados, devastados e com medo. Então ele termina seu trabalho e retira a última camada, a mais dura e resistente, a dos maus sentimentos e maus pensamentos, mas quando termina com isso, é como se estivéssemos nus. Finalmente aparece muitas vezes pela primeira vez, e outras é uma surpresa até para a própria pessoa, a nossa real face, sem máscaras, sem mentiras, sem esconderijo, somos nós. Estamos finalmente bem. É tão prazeroso esse bem estar que nos faz derramar algumas lágrimas, mas o problema está aí... nos vemos sem camadas, sem escudos ou armaduras, nós somos facilmente feridos, facilmente mortos e podemos até mesmo não gostar de sermos o que somos. Talvez o tempo seja o lustrador de diamantes, mas ao mesmo tempo o destruidor de rochas.

30/05/2015

Ahhh o amor

Nosso amor, ahh tão lindo, tão maravilhoso. Pena que não posso simplesmente jogar mentiras no papel... o amor é terrível, sem futuro, burro e cruel, meu acelerador, e meu freio, meu parar e meu continuar, com a crueldade suficientemente grande para me continuar jogando, lentamente, mas ainda me mantendo dolorosamente, jogo o qual não deveria participar, mas é lindo o suficiente para me fazer não sair dele, mesmo não sabendo se isso é bom ou ruim associar-lho-ei ao bem, já que a vida já por muitos se foi vivida e relatada, e o mistério da morte nunca, pelo menos à mim, já se foi contado, e mistério é vida, e enquanto vivo mantenho-me morto, e a morte não deveria ser almejada. O amor, me acelera para me parar, me joga contra o muro à fim de me ver corrompido por ele, quer me levar às nuvens para logo me jogar no inferno, me ajuda à sentir, mas só o ódio, a raiva, o desprezo e a tristeza. O amor,  que tanto é querido e admirado, que é louvado como um Deus, que mesmo sendo tão poderoso quanto, pelo menos é real, ele realmente faz-me sofrer, enquanto Deus, Lucifer,Alá, ou seja lá como chamam nunca se importou o suficiente comigo para me fazer insignificante e solitário. Comecei com o amor para chegar ao ódio, bom acho que são a mesma coisa, não os vejo diferenciar-se tanto, talvez o amor só seja esse coquetel de sentimentos que sinto e que faz me escravo da vida

21/05/2015

Sombras

As sombras, tão controversas, hilariantes, mas em certos momentos perversas , são tão.... constantes, não são como a luz , não precisam de uma fonte, não precisam de energia, não precisa de nada, não precisa sequer que algo exista, podem reinar perante o nada, ou até mesmo perante o universo cheio. Elas podem ser tão asquerosas e irritantes, mas às vezes... às vezes fazem algo bonito, formas lindas, contrastes perfeitos, que nos fazem parecer estar em outro mundo, um mundo perfeito de linhas tênuas entre dois opostos, a luz e a escuridão, que podem parecer tão distantes e opostas, mas que conseguem formar ilusões, conseguem nos fazer de leigos em um hábito que fazemos desde que nascemos,ver. As sombras não são qualquer coisa, elas são o nada e o tudo, elas são perversas, porém bonitas e gentis. Elas são... humanas

18/05/2015

Dança problemática

Tanta fome e tanta guerra que as dores do mundo parecem dançar de forma desorganizada, como se disputassem as atenções no palco de forma que causam loucura à quem para pra assistir e o convida a participar dos bastidores, afinal quem produz esse festival são os loucos de problemas gerados por outros produtores ou por desejos.
Engraçado como na cabeça de todos estes, seus próprios dançarinos, ainda que inferiores aos outros, sempre serão melhores e prioridades a todos para todos os passantes, então os empurram  para plataforma (isso me preocupa, pois já não sei quanto mais o palco aguenta); outros expectadores, resolvem ignorar essa massa fazendo passos mal compassados, e ensaiam seus problemas, na esperança de que um dia sejam descobertos pelos holofotes, brilhando em cima do palco; enquanto alguns, guardam suas danças para si próprio, afim de reviver-las quando quiser; de qualquer forma, todos tem algum passo, cada um vai na apresentação que quiser e se fecham a outros festivais.

Mesmo tentando

Sempre igual, o mesmo mundo, dia pós dia, semana pós semana, ano pós ano, mesmo com todo meu esforço, eu sozinho não sou forte o suficiente para impedir à todos. Vivendo neste real inferno, já que estou decidido que estou morto, pelo menos por dentro, e por fora ainda não tenho certeza, já que evito olhar no espelho para ver tamanha aberração, mas dos olhares que recebo já não sei identificar, de tão comum que se tornaram com o tempo. Todo dia na mesmo cela, preso pelas mesmas paredes , mesmo as tentando derrubar, há sempre outra camada. As nossas prisões deveriam ser a mesma, pois assim nós juntos conseguiríamos derruba-los , mas a maior arma de ditadores é o poder de nos distanciar.

13/05/2015

Memórias


Ahh minhas memórias, tão distantes porém próximas, tão tristes e patéticas, tão insignificantes e rasas. Para mim memórias antigas e distantes, podem ser coisas comuns para outros, satisfação, alegria, felicidade, amor, coisas que não sinto e emito faz tempo. Memórias distantes, nostalgia feliz, memórias próximas, passado obscuro. Lembrar dos nossos feitos ou pensamentos são dádivas ou maldições, podem ser segundas chances de se fazer o certo através dos ensinamentos da primeira, mas podem ser prisões, assombrações, correntes fortes com o passado que não te deixam seguir em frente, aprisionando-lhe e sendo obrigado à ver as pessoas indo porém não voltando sem poder fazer nada. Memórias são nossas identidades, é o último subsídio de manter nossa humanidade e sanidade, com nossos equívocos passados.