03/04/2015

Ela despida de si mesma

Deu uma última olhada enquanto estava nua diante do espelho, observou suas curvas, seus seios, tudo o que gostava e o que não gostava em seu corpo e caminhou até o chuveiro, onde a água já estava quente. Sabia que ali, onde ela entraria, ia ficar tudo bem.
Se sentiu cada vez mais leve, deixou toda sujeira, problemas e pensamentos que a empurravam cada vez mais para baixo irem embora pelo ralo. Lavou-se de todo ódio que tinha e de todo amor não correspondido. Sufocou-se com o vapor e queimou-se com a água, mas sentia-se melhor, pois mesmo que queimada e sufocada, não tinha medo, sempre tinha medo, porém ali não, ali ela estava envolvida por uma fumaça que a acolhia e molhada por algo que a refrescava. Escreveu em letras garrafais no vidro do box que já estava embaçado o que ela mais queria ouvir e gritar para todos nesse mundo: "Eu te amo". Logo depois se encolheu no chão e deixou a água levar o que ela tinha de mais precioso: seu choro. Permitiu que suas lágrimas salgadas se misturassem com as gotas doces que caiam sobre seu rosto e corriam por todo o seu corpo deixando um rastro que era seguido por outras gotas. Sentiu vergonha por estar nua, mas logo achou engraçado o fato das pessoas andarem de roupa sendo que podiam andar nuas e sentirem-se si mesmas, talvez elas andassem vestidas por ter medo de mostrar quem são realmente para os outros, ou, elas podem somente estar aguardando para mostrar quem são para quem elas amam e se entregar de tal forma que só essa pessoa saiba exclusivamente quem é o seu parceiro de verdade. Sabia que não era assim que as pessoas pensavam, mas preferiu encarar desse jeito, achava que se a história fosse dessa forma ficaria mais romântica.
Quando seus dedos enrugaram, lembrou-se da velhice e de como o tempo passava rápido e que nunca poderia recuperá-lo caso o perdesse, então se ergueu, apagou as suas palavras do vidro e desligou o chuveiro, tinha coisas melhores para fazer.

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