22/03/2015

Menina temporal

Desesperou-se. O dia que já estava nublado, ficou chuvoso. Começou à chorar. O que era chuvisco, virou pé d'água. Gritava e seu som era abafado pelo som de um trovão. A cada lágrima, um raio.
Chorava como quem chorava por morte. Afinal se sentia morta. Não estava, pois estava triste, isso já era o suficiente para estar viva. Sentia dores de parto sem motivos, chorava por sua aparência; pelo seus irmãos brigarem tanto; pelos loucos que só eram loucos porque ninguém os entendia, sentia pela sua fome. Sua fome era diferente, uma fome inexplicável, fome carregada por muitos anos, dolorida, fome de  felicidade. Estava cheia de se sentir vazia.
Seu choro era avassalador, destruidor, alagava ruas, afundando tudo o que encontrava. Entre tanto, estava regando as plantas de seu jardim, lavando sua alma e lavando a alma de todos que se renovam com a chuva. Se sentia livre com seu choro, e a cada gota de lágrima que saía de seus olhos deixava-a mais feliz, aos poucos sua sensação vazia foi se preenchendo com paz e o temporal, se acalmando.
   

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